valorizem o auto aprendizado, a inquietação permanente e a abordagem crítica daquilo
que é aprendido (Campos y Belisário, 2001). Para isso, a educação profissional precisa
transmitir valores e atitudes, além do conhecimento. Na educação em saúde essa
transmissão ocorre, principalmente, na transversalidade das “humanidades”, ou seja, nas
disciplinas que visam à formação de uma visão holística do ser humano (Ristow, 2007).
Entretanto, há evidências de que a medicina ainda não está aberta à mudança de
paradigma necessária, pois a formação médica ainda se depara com a ausência ou a
marginalidade de disciplinas de caráter humanístico nas matrizes curriculares (Ribeiro y
Amaral, 2008). O desafio se amplifica ao considerar o tema da transexualidade no
universo acadêmico somado à cultura heteronormativa que inferioriza e desqualifica o
que escapa aos padrões heterossexuais e cisgênero (Santos y Cruz, 2014).
Em consulta às bases de dados Lilacs, PubMed e Scielo utilizando os descritores
“transexualidade/transexuality” combinado à “educação médica/medical education”,
encontramos poucos artigos publicados até agosto de 2020 sobre transexualidade na
graduação de medicina dentre os resumos disponíveis. Encontramos 12 artigos na Lilacs
(Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), dos quais apenas 2
estudos se referem à graduação de medicina. Estes elucidam a pouca abordagem do tema
na formação médica (Ling-Fang y Hsing-Chen, 2015) e a inadequação do conhecimento
às necessidades das pessoas transexuais (Rondahl, 2009). No PubMed encontramos 30
artigos, dos quais 6 se relacionam à educação médica na graduação, sendo que 2 se
repetem da Lilacs, As demais pesquisas evidenciam que estudantes com maior exposição
ao atendimento de pessoas LGBTI+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, intersexo)
têm maior conhecimento das suas questões de saúde e realizam uma abordagem mais
compreensiva (Sanchez et al., 2006). Outro estudo elucida que o aprendizado sobre a
saúde de pessoas transexuais ainda é menos retratado do que a saúde de pessoas LGB
(Liang et al., 2017). Nas escolas de medicina dos Estados Unidos e Canadá, o tempo
médio relatado dedicado a tópicos relacionados à saúde LGBT em 2009-2010 foi
pequeno, sendo que a quantidade, o conteúdo coberto e a qualidade percebida da instrução
variaram substancialmente (Obedin-Maliver et al., 2011). Quanto ao corpo docente,
professores que percebem mais barreiras para o ensino da saúde LGBTI+ dedicaram
menos tempo a esses tópicos (Tamas et al., 2010). Não encontramos nenhum artigo sobre
o ensino de temas relacionados à transexualidade na graduação médica no Brasil, o que
se confirma na busca realizada na Scientific Electronic Library Online (SciELO). Essa
lacuna evidencia a relevância da realização de pesquisas nessa área.
Na busca por modelos tradicionais e pela adequação à ordem, a medicina se
apropria da transexualidade como um problema médico (Leite y Santos, 2016). Ao
considerar as pessoas como pertencentes à dicotomia feminino ou masculino, a educação
médica desconsidera as múltiplas possibilidades de vivenciar as expressões do gênero e
da sexualidade, limitando os modos de existência. Para minimizar as consequências dessa
perspectiva reducionista que ainda norteia a avaliação, o diagnóstico e a intervenção
médica, faz-se necessário a reorientação do ensino médico para que as pessoas não sejam
discriminadas e tenham tratamentos adequados (ONU, 2012).
Nesse sentido, a educação médica requer adaptações curriculares de acordo com
as necessidades de saúde articuladas às questões sociais das populações. Para tanto, este
estudo teve como objetivo analisar como o tema da transexualidade é abordado no curso
de medicina de uma universidade de Santa Catarina, região sul do Brasil. Busca-se dar
visibilidade à temática para contribuir para uma formação ético-política que contemple a